Brasília - Bela sacada programar este Niemeyer - A Vida É Um Sopro para a abertura do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro em sua 38.ª edição. A cerimônia ocorreu no Teatro Nacional Cláudio Santoro, 1.400 lugares tomados, uma das glórias arquitetônicas da capital, desenhada por Oscar. O público reagiu bem ao filme do documentarista Fabiano Maciel. E isso em razão da atitude inconformista, assumida por um sempre jovial Niemeyer, do alto dos seus 97 anos. O arquiteto dispara sua metralhadora giratória contra a especulação imobiliária, o descaso das autoridades com a pobreza, Bush e tudo o que não o agrada no mundo. Fala diretamente aos jovens, sempre um público majoritário nos festivais de Brasília. Nos 90 minutos do filme, Niemeyer obscurece alguns ilustres depoentes, como Chico Buarque, Ferreira Gullar, José Saramago e o historiador inglês Eric Hobsbawm. Nenhum deles fala sobre Niemeyer como faz o próprio Niemeyer. E isso porque fala, tanto de si como de sua obra, com desapego que só engrandece ambas. Daí o título, tirado de uma frase que o arquiteto repete algumas vezes: precisamos olhar para o cosmos, para nos convencermos de que a vida é um sopro, somos todos insignificantes diante da grandeza do universo.
Um dos melhores depoimentos é do escritor uruguaio Eduardo Galeano (de As Veias Abertas da América Latina): "Niemeyer odeia as linhas retas e o capitalismo." Eis aí o escritor indo ao essencial e apontando para o comunismo humanista de Niemeyer e todo o seu projeto arquitetônico, inspirado conceitualmente nas curvas do Rio e da mulher, e materialmente nas possibilidades de construção do concreto armado.
Pode-se estranhar a ausência do contraditório nesse filme-homenagem. Afinal, Niemeyer não é homem de temer a controvérsia. E, como se sabe, pode ser um figurão nacional e internacional, mas sua obra e sua atuação não estão ao abrigo da polêmica. Pelo contrário. Só para ficar num exemplo notável, o documentário Conterrâneos Velhos de Guerra, de Vladimir Carvalho, mostra um Niemeyer furioso quando convidado a explicar alguns fatos obscuros da construção de Brasília, como a morte de trabalhadores.
Fica do filme, além das intervenções divertidas e às vezes agudas de Niemeyer, um desenho de fundo interessante, apontado por Hobsbawm: a estupenda geração brasileira de 1930, formada por gente como Gilberto Freyre, Caio Prado Jr., Sérgio Buarque de Holanda, Darcy Ribeiro e o próprio Oscar, entre outros. Tinham noção da grandeza potencial e dos problemas reais do País. Trabalharam com a fé de que o Brasil era um país original e teria algo de interessante para oferecer ao mundo. Erraram demais. Mas nada parecido com as gerações que se sucederam, e muito menos com a nova ´intelligentsia´, cética e deprimida, que passou a dominar o cenário cultural a partir dos anos 1980 e 1990.
A biografia de Oscar, complicada que seja, é um alegre contraponto a essa esterilidade contemporânea. A vida pode ser mesmo um sopro. Mas vale a pena ser vivida quando o é com a intensidade de um Oscar Niemeyer.
|