Um arquiteto de mais de 800 obras, mestre da arquitetura moderna brasileira, ousado co-autor de uma cidade inteira- apesar do peso de tantos títulos, adjetivos, rótulos e frases feitas, Oscar Niemeyer não é o homem mais fácil de ser desvendado. O maior mérito do documentário Oscar Niemeyer- A Vida é um Sopro, exibido terça à noite, na abertura do Festival de Brasília (for a da competição), está nos trechos em que revela ao público como aquela personalidade aparentemente tão conhecida permanece um enigma- e não será este filme que o enxergará de forma diferente daquela que este complexo personagem quer ser enxergado.
Dito assim, parece até que o projeto do diretor gaúcho Fabiano Maciel nasceu fadado ao fracasso. Não é bem isso. Estruturado nos moldes convencionais de um documentário de função quase didática, o filme guarda nas entrelinhas a busca de um diretor por conhecer um homem que sabe muito bem como (não) se expor diante das câmeras, à imprensa. Durante as entrevistas com o cineasta, Niemeyer só disse o que bem entendeu. Maciel pulou questões, contornou outras e tentou capturar opiniões com cheiro de espontaneidade. Por fim, optou por estruturar o filme a partir das análises que o arquiteto faz da própria obra. Se pode frustrar quem espera encontrar revelações sobre a vida e as idéias do homem, ilustra bem o olhar distanciado, objetivo, que o arquiteto tem de seu trabalho.
Em 90 minutos, o espectador é colocado como que em uma sala de aula, cujo professor é Niemeyer. Em um quadro, o arquiteto de 97 anos explica, aos riscos, projetos como a sede da ONU em Nova Iorque, a Pampulha, o Museu de Arte Contemporânea de Niterói e, com orgulho, Brasília. Maciel organiza o filme ao redor das obras de Niemeyer. Uma opção carrega uma boa intenção: a de apresentar o ilustre personagem a uma geração que não o conhece – mas também constrói uma prisão narrativa, em que os fatos precisam caber em uma ordem cronológica, temática. Os depoimentos de amigos, como Chico Buarque e Ferreira Gullar, servem para sublinhar a importância do “protagonista”, não mais que isso.
Lá pelas tantas, fica claro que o projeto de Maciel é desfazer qualquer tipo de mal-entendido que exista acerca do trabalho de Niemeyer e afirmá-lo como essencial para a história do Brasil do século 20. Não haverá muita gente disposta a desmentir o diretor- a importância do arquiteto não é, principalmente em Brasília, pouco reconhecida. O que há de mais interessante no filme está em quando ele se livra dessa pretensão de insuflar um ícone brasileiro e encontra disposição para deixar que o homem se solte das amarras do documentário. Nesses suspiros, A vida é um Sopro parece menos ambicioso, mais particular, mais curioso.
Quando esbraveja contra otimistas – “otimismo é ridículo, não leva a nada” diz Niemeyer- ou critica a arquitetura da Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro- “parece subúrbio de Miami”- sai de cena a figura do professor e entra a de um homem que alterna momentos de alegria e desilusão, de defesa da harmonia das curvas (dos prédios e das mulheres), de revolta contra as injustiças sociais e sutil desespero diante da velhice, da solidão. “Esqueço até o nome do sujeito que está do meu lado”, desabafa, entre uma entrevista e outra. Nesses raríssimos momentos, Maciel descobre Niemeyer. E o filme cresce em beleza e emoção.
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