Às vésperas do primeiro encontro com o arquiteto Oscar Niemeyer, há sete anos, o documentarista porto-alegrense Fabiano Maciel, 40 anos, se preparou para o pior. Como sintetizar em poucas entrevistas uma vida que a todo momento se confunde com a história do Brasil do século 20? Depois de uma pesquisa exagerada, confeccionou um questionário parrudo. Pensei em umas 400 perguntas, conta. Se ele não quisesse responder alguma, era só passar para a próxima. O preparo exaustivo não foi em vão. Logo na primeira questão, a metralhadora de perguntas teve que ser acionada. Eu queria saber sobre uma casa que ele havia planejado para Oswald de Andrade. Um presente de um modernista para outro modernista. Mas ele disse: `É uma bobagem, não é importante`, lembra Fabiano.
Agora, com o filme Oscar Niemeyer: a vida é um sopro pronto para ser exibido – e na abertura do 38º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro –, o diretor entende melhor a atitude aparentemente ríspida do mestre. No fim das contas, acho até que ele falou muito. Descobri um homem bastante generoso, capaz de explicar a própria obra com simplicidade absoluta, revela.
O gosto por arquitetura, Fabiano conserva desde cedo. Faz parte até de uma forte memória de infância. Lembro de um álbum de figurinhas que eu tinha, bem ufanista. As fotos de Brasília já me impressionavam muito. O encontro com Niemeyer não foi tão premeditado assim. Depois de assistir a uma palestra em homenagem aos 90 anos do arquiteto, Fabiano e o produtor Sacha – que trabalhavam juntos em projetos para a tevê – saíram de lá com a idéia para um documentário. A primeira providência foi marcar uma série de entrevistas, que durou quatro manhãs. Aos poucos, era consolidada a estrutura de um filme sobre a obra, a vida e os pensamentos de um dos pais de Brasília – e da arquitetura moderna brasileira.
O filme, que ocupará o disputado espaço da Sala Villa-Lobos nesta noite, é um painel de 90 minutos em que Niemeyer ilustra e defende o próprio trabalho, declara amor à capital que ajudou a construir e critica a arquitetura praticada no Brasil. Brasília deveria parar, decreta o arquiteto, de 97 anos de idade, em um dos depoimentos mais marcantes do filme. Não deveria ter um único bloco de apartamentos a mais. As cidades não deveriam crescer sem controle. Deviam parar e depois se multiplicar, continua. Com uma estrutura simples, que destaca as entrevistas de Niemeyer, A vida é um sopro dá espaço para que o homem coloque a limpo a relação com o próprio ofício. Há pessoas que dizem que ele é anacrônico, mas ele está aí, trabalhando no escritório dele. O que ele faz hoje é melhor do que 90% do que se vê no Rio, em Brasília, diz Fabiano – que mora há 20 anos no Rio.
Brasília palpitante
O homem revelado no filme é lúcido e crítico. Espia a vida com pessimismo declarado, protesta a favor de uma arquitetura de beleza e curvas (como as mulheres, que tanto elogia) e confessa estar cansado de ser perguntado sobre os mesmos assuntos. Brasília ainda é tema que provoca em Niemeyer alguma nostalgia – das festas da época da construção, dos prédios que planejou. À Câmara dos Deputados e à Catedral, dedica momentos quase emocionados. Em um dos trechos do filme, passeia sorridente pelo Museu de Arte Contemporânea de Niterói, ainda orgulhoso dos próprios feitos. Busco uma arquitetura mais leve, mais vazada, mais ligada ao nosso país, explica, na tela. A fala seca de Niemeyer é contrastada pela homenagem rasgada de amigos como Chico Buarque, Ferreira Gullar e José Saramago.
Fabiano não tem medo de assumir que o tom do filme é de exaltação. No Brasil, parece até que nossos gênios não podem ser homenageados, defende-se. Também admite a dificuldade que foi chegar a uma imagem de Niemeyer que se afastasse daquilo que o arquiteto sempre expôs em entrevistas a jornais, revistas, canais de tevê.
A barreira de intimidade é vencida quando o cineasta flagra comentários do arquiteto sobre o dia-a-dia – sobre como a memória às vezes falha, sobre a simpatia ao MST e a antipatia a Bush. Depois de gravar mais de 80 horas – em vídeo digital e 16 mm –, filmar em seis cidades brasileiras (além de França, Itália, Argélia e Estados Unidos), Fabiano apresentou o filme a arquitetos, que aprovaram o resultado. O difícil agora é saber o que o público vai achar, diz.
A escolha da produção carioca para abrir o Festival de Brasília surpreendeu o diretor. É uma ótima vitrine para o filme. O festival é dos maiores do país, há diretores que guardam filme para exibir aqui.
Mostrar o documentário para brasilienses é outra razão de estímulo para o cineasta. Eu me sinto muito bem em Brasília. É uma pena ver o que fazem com a arquitetura da cidade. Você olha o Pontão, é ridículo. Um retrocesso visual, ataca. Seria o inconformismo do personagem que teria contaminado o diretor? Este é um filme sobre uma geração que acreditava ser possível mudar o mundo com a arquitetura, diz. Um tipo pouco confortável de utopia, que tem em Niemeyer um
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